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"Caiu-se num arraial"

O arquitecto Eduardo Souto de Moura é incontornável para todos os que apreciam arquitectura e não só. Em Setembro, representa Portugal na Bienal de Arquitectura de Veneza. Em entrevista ao Expresso, revela as suas principais preocupações e expectativas do mundo da Arquitectura em Portugal.

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Quarta, 10 de Setembro de 2008 às 9:55

Texto de FERNANDA PEDRO

Em que estado se encontram os nossos centros históricos?

Houve algumas coisas que foram feitas, também não se pode dizer que foi tudo mau e criticar tudo. Da parte das câmaras de Lisboa, independentemente dos partidos, tem já havido uma certa apelação a isso, a uma libertação de burocracias - e do Porto também. Estou convencido que faltam duas coisas para finalizar o bolo com a cereja em cima. Há uma parte da legislação que tem de ser alterada e tem de existir maior pragmatismo para duas coisas, que é a instalação de elevadores e abrir os rés-do-chão para garagens. Isto é, os centros históricos eram ambientes para uma população mais idosa que saiu. Hoje, é grande atractivo para uma nova geração. Essa nova geração vive lá, vai ao supermercado e não pode trazer as compras até ao 4º ou 5º andar pelas escadas, cheia de sacos, e ainda por cima deve parar o carro à porta para descarregar e depois ir estacioná-lo a meio quilómetro de distância. É necessário transformar alguns quintais nas traseiras, de tantos em tantos edifícios em garagens, para que as pessoas fiquem com os carros relativamente perto. Mas não é transformar a cidade para os carros, o Metro já resolve muitas destas questões do acesso. Este tipo de soluções já foi ensaiado em cidades europeias. Outra questão: esta operação para recuperar os centros históricos chegou a Portugal quando se levantava a crise internacional e que depois por sistema dominó chega ao nosso país; então as peças vão caindo. No fundo, o que falta é o dinheiro para investir. Aqui no Porto é pior, porque o ambiente é a crise da crise. É talvez a cidade mais preocupante de Portugal porque tem o maior número de desempregados e instalou-se um certo adormecimento provocado por essa crise. As pessoas estão a aceitar essa situação, o que leva a que a nível de iniciativa em relação ao resto das cidades portuguesas o Porto esteja em último. Só no futebol está em primeiro. É preocupante, todos dizem que a cidade é lindíssima, e é, património da UNESCO, e precisa de uma progressão financeira de outra maneira. Não pode ser a que está - estão muitos estrangeiros a investir, quebrou-se a fronteira da baixa decadente e que ninguém vai para lá e não se investe nada. Mas neste momento já existe alguma coisa na Avenida dos Aliados, mas isso é um bocado a jóia da coroa e a cidade não são monumentos e peças, tem de ser um todo onde haja quarteirões anónimos com livrarias, cafés, galerias de arte.

Acredita nas Sociedades de Reabilitação Urbana (SRU)?

Acredito, preocupam-me algumas coisas mas não as SRU. O que me preocupa muitas vezes são os resultados dos projectos. Não queria que esta aceleração levasse a um aligeiramento dos critérios de recuperação. Acho um erro que muitos edifícios com estruturas de madeira, tectos e escadas, sejam demolidos para serem feitos em betão. Quando está tudo em ruínas, sim senhor, faz-se em betão, que é muito seguro. Há um património que não são só fachadas. Há um património interior, existem escadas de sucupira, tectos pintados, portas com 3,5 metros pintadas a tinta de óleo, interruptores de porcelana. Depois existe outra questão, que é haver um incentivo da manutenção. Existe um aligeiramento dizendo que os caixilhos podem ser de alumínio pintado e de PVC, que ao longe ninguém nota, parece madeira, mas põe-se a mão e é quente. Não é uma questão de temperatura mas um problema de carácter. Os edifícios naturalmente têm de ser recuperados, porque são património e têm de ter a sua identidade própria. Dizem que sou um poeta.

Como vê a arquitectura actual?

Não vejo mal. Estou muito preocupado com muitas coisas em Portugal. Mas a arquitectura é um grupo profissional que tem cumprido os objectivos. Não é por acaso que a arquitectura portuguesa é bem tratada no estrangeiro, como outras disciplinas. O que é certo é que os arquitectos portugueses são convidados para dar aulas nas universidades estrangeiras, e não são dois ou três mas muitos. Sei que muitos ateliês estrangeiros aceitam todos os anos arquitectos portugueses na sua renovação de estagiários. E temos muitos arquitectos que têm obra lá fora, já não falo no Siza, que praticamente só trabalha no estrangeiro, mas um Carrilho da Graça, um Byrne, um Mateus, eu e uma série de profissionais que trabalham lá fora. E internamente acho que há uma geração - considero que não existe a geração rasca, foi uma frase muito infeliz -, sou optimista porque vejo que há uma geração antes dos 50 anos, a dos 40, muito boa. É difícil ser arquitecto aos 30, porque é preciso ganhar lastro, não se abre um escritório de arquitectura e depois as pessoas tocam à campainha a dizer: quero fazer um prédio. A geração dos 40 tem imenso valor, basta ver nas revistas e nas exposições que estão a construir lá fora. Tenho muitos ex-alunos que estão a trabalhar lá fora. Nesse aspecto vejo que existe uma qualidade acima da média em relação ao resto da Europa. Posso dizer, sem ser patriota, 10 nomes de muitos bons arquitectos portugueses que estão ao mesmo nível dos melhores da Europa, e em muitos países europeus não consigo encontrar esse número - talvez três ou quatro com o dobro ou o triplo da população. Agora, isto não é um mar de rosas, as condições de trabalho para esses arquitectos em Portugal são difíceis e muitas vezes se eles trabalham para fora não é só pela honra de ter sido escolhido mas também por uma questão financeira. A crise chegou à construção civil e chegou também aos arquitectos e engenheiros. E as condições de trabalho de muita gente, posso dizer que são degradantes. Não é o meu caso, mas são obrigados a fazer projectos a um preço que das duas uma: ou aldraba, não faz o que deve fazer e muita gente honesta não consegue fazer isso, ou trabalha em actividades paralelas, como nos 3D e maquetas, e vendem os seus serviços como se fosse uma empresa comercial, porque o próprio projecto de arquitectura não dá dinheiro. Isso deixa muita gente aflita, a dar aulas, muitos a emigrar e outros a ir para Lisboa, como eu, porque aí é que há o pouco trabalho que existe em Portugal.

Acha que a internacionalização da nossa arquitectura, com nomes como o Siza ou o seu, é que tem motivado os jovens a escolher esta profissão?

A arquitectura entrou em moda aqui há uns anos. Foi uma profissão emergente. Quando disse que gostava de pintura, foi uma reacção lá em casa, pintores nem pensar, que morriam de fome. O que não é bem o caso - hoje um bom pintor leva mais por um quadro que um projecto de arquitectura. Uma família conservadora como a minha disse: não vais nada para pintura mas para arquitectura. E a arquitectura era uma coisa que não se sabia bem o que era. As pessoas não chamavam arquitectos, ainda hoje está por fazer a lei, o famoso 73/73, que felizmente penso que agora vai para a frente. Em que os projectos de arquitectura são para os arquitectos, as doenças dos olhos devem ser tratadas por oftalmologistas e não por oculistas. Os engenheiros têm a função de materializar e fornecer caminhos e métodos aos arquitectos, mas não têm a formação cultural para desenhar edifícios. No meu entender, da mesma forma como nós por intuição podemos construir um edifício que não caia, mas se calhar gastamos muito ferro por medo, o que não é conveniente. Cada um deve ter o seu papel e trabalhar em equipa. Mas, de repente, a arquitectura foi uma profissão emergente. Tal como outras que estão a acontecer agora, como a fotografia. Os arquitectos paisagistas também eram de recurso e o mesmo se passava com os arquitectos. Até quando fui chamado para o Metro do Porto, no princípio estava rodeado de engenheiros e quando dava uma sugestão, diziam-me: 'Você vai escolher os azulejos, deixe-se estar sossegadinho'. E depois não foi nada disso, perceberam a utilidade e fiz quase todas as estações. Isso mudou, o Siza teve o papel muito importante nisto tudo. O Teotónio Pereira, em Lisboa, e o Távora, no Porto, prepararam o terreno para que aparecesse o Siza, que realmente mudou a arquitectura nacional, fazendo dele uma figura pública. Ele contribuiu para essa alteração e é uma espécie de Figo, de herói. Muita gente nova foi atraída por essa imagem, um português que ganha o prémio Nobel da arquitectura e recebe a medalha de ouro do imperador do Japão. Isto cria uma atmosfera que leva a que os miúdos, no fim das conferências, venham pedir autógrafos, como se fosse uma banda de "rock" e, claro, se não dou dizem que sou um parvalhão e, por outro lado, aparece a crítica a dizer que o Souto de Moura dá autógrafos como um roqueiro. Mas isso dá uma imagem do arquitecto que não é bem assim. Está a cair-se num arraial, e há pouco trabalho para os 16 mil arquitectos, não é fácil.

Pensa que a nova direcção da Ordem dos Arquitectos pode dar alguma ajuda e criar medidas para isso?

Sou presidente da Assembleia e não tenho muita disponibilidade, mas quando aceitei foi exactamente para acabar com esta telenovela do 73/73 e definir de uma vez por todas o que cada um pode fazer. O problema aqui é que hoje existe uma maneira moderna de trabalhar na arquitectura que mexe com os sentimentos. Um arquitecto não precisa de imensa informação, mas precisa de saber custos, os materiais que vai usar, precisa de trabalhar com engenheiros de mecânica para os edifícios não custarem balúrdios em manutenção e energia, precisa de encontrar um sistema construtivo mais adequado. Necessita de uma equipa de engenheiros. Eu e toda a minha geração trabalhámos com os engenheiros desde o primeiro dia. Sou incapaz de ir ver um terreno para fazer um concurso ou um projecto novo sem eles. Não é o artista que leva um cavalete e medita para ver se o sítio lhe dá inspiração. Não é inspiração mas transpiração. É chegar a um sítio e o engenheiro diz-me: foge daqui que existe um curso de água. Começa logo no início um espoletar de soluções, e essa dicotomia que se inventou e que não é real entre alguns engenheiros e arquitectos não sei como começou e devia acabar. É um problema de inércia. Por isso aceitei este cargo para ajudar e tenho falado com o primeiro-ministro, ministros, secretários e deputados. E todos eles dizem que sim, mas que leva algum tempo.

O que é necessário mudar na arquitectura?

O problema número um para mudar: não se pode continuar a fazer projectos com os prazos que os clientes nos impõem. Não é que não se consiga, o que se faz é mau. Copia-se tudo lá de fora, por que não se copia isso? Por exemplo, um projecto importante, num sítio importante, onde todos vão ver durante anos, que vai afectar muita gente, que custa muito dinheiro, e cá dão-nos um prazo de três ou quatro meses? Tudo atabalhoado. Depois diz-se: a obra resvalou. Uma mentira. O Estado e os clientes gostam de mentir a eles próprios. O português gosta de ser o 'chico esperto'. A arquitectura é uma arte social que desenha espaços, mas a coisa mais importante para desenhar espaços é o tempo. É mais importante o tempo na arquitectura que o espaço. E lá fora, os projectos demoram o que for preciso, um ano, dois. E, se forem coisas complicadas em sítios públicos muito importantes, levam três anos, porque há um período de debate com maquetas, todas as câmaras têm um "stand" com os novos projectos, as pessoas fazem sugestões, vêm os partidos, as juntas de freguesia e o arquitecto vai anotando e mudando. E quando está tudo decidido, a construção é muito cara e então é tudo detalhado ao milímetro e ninguém pode falar, nem o arquitecto pode ir à obra para não baralhar tudo. E a obra tem de andar muito rapidamente, seis ou sete meses. Aqui é ao contrário. Ou há eleições, ou porque vai chover no Inverno e é preciso começar no Verão, ou porque vamos perder a verba da UE, os projectos são mal feitos. E como são mal feitos, têm pouca informação, levam o dobro do tempo. Depois há improvisos e isto dá um dispêndio de energia e financeiro brutal. E o Estado tem de dar o exemplo e não pode entregar obras de arquitectura por concurso ao mais barato, que é o que faz. O Estado tem de exigir o número de peças, de desenhos e de informação que estava legislado pelo Ministério das Obras Públicas (MOP) e que neste momento liberalizou - cada um entrega e leva o que quer. Chegando ao ponto de me pedirem para fazer um palácio da Justiça e perguntarem quanto levava. Eu respondi: levo de acordo com a tabela do MOP. E disseram-me: mas o Ministério da Justiça não segue a tabela do MOP, queremos 20 a 30% de desconto. A partir daí estava tudo dito. Não aceitei fazer o projecto por uma questão de princípio, nem era pelo dinheiro. Quando chegamos ao ponto em que o próprio Estado mente a ele próprio, não vale a pena. Este é o problema principal, porque isto degrada. Porque as pessoas gostam de fazer arquitectura, submetem-se a condições incríveis, e como não são super-homens nem super-mulheres, os projectos sofrem e nem sempre são bem feitos. Por isso também estou na Ordem dos Arquitectos porque tem de existir uma nova legislação e vai ser muito difícil. Por exemplo, a Europa liberalizou e a Bélgica não aceitou este estatuto e levou uma repreensão da Comunidade Europeia. Os arquitectos andam entusiasmados com as formas e pensam pouco nisto, mas acho que é fundamental arrumar a casa. O cliente, os bancos, as pessoas que têm dinheiro, os construtores, os projectistas, estabelecem as regras do jogo. Com um baralho de cartas posso jogar à sueca, bisca ou canasta, mas tenho de saber o que vou jogar. E eles também. O importante são os projectos serem mais bem pagos, até já me contento com a tabela existente, mas que seja aquela, e a seguir tem 10 a 20 páginas a dizer: pagando este tanto, o projectista terá de fazer isto, isto, etc, e de certeza que os projectos ficam melhor. Os projectos são divididos em quatro fases: programa base, estudo prévio, anteprojecto e projecto de execução. Obriga a revê-los quatro vezes, a fazer maquetas quatro vezes e, nas últimas duas fases, a entregar orçamentos e saber na fase final se o projecto fica muito caro ou barato e rectificar para melhorar. Ontem pediram-me para fazer um projecto num mês. Não merecemos isto. A questão do tempo dos projectos é o principal. E há outras coisas que se arrastam, como por exemplo ter-se uma tabela e ser-se melhor remunerado. Porque, no fundo, os arquitectos não falam muito nos honorários, mas eu falo muito. Porque como me reduzem o tempo, e como é pouco tempo, mesmo que o pagamento seja mau, dá ela por ela. Mas não pode ser,,,

E todos dizem que o Estado é mau pagador...

É um ciclo vicioso: como o Estado não paga, os privados também não. Porque o privado diz que não tem reembolso e isso é uma bola de neve.